Super heróis e vilões que os criadores de quadrinhos preferem que você esqueça

É incrível pensar sobre o passado dos super-heróis. Personagens que uma vez eram conhecidos apenas por pequenos grupos de pessoas, de repente explodiram em grandes sucessos de bilheteria. Claro, o sucesso de heróis como Homem Aranha e a Mulher Maravilha é uma coisa, mas agora vivemos em um mundo onde até mesmo aqueles personagens que só eram admirados pelo público mais cult, como o Homem Formiga e os Guardiões da Galáxia, tornaram-se lendas da cultura pop.

No entanto, nem todos os super-heróis ou supervilões têm o que é preciso para cair no gosto do grande público. Você provavelmente nunca verá um filme sobre nenhuma super figura citada nesse artigo. Quando você mergulha profundamente o suficiente na história dos quadrinhos, encontrará personagens tão ridículos, tão fora de moda e / ou tão ofensivos que é difícil acreditar que alguém aprovou eles algum dia. Aqui está uma lista de super-heróis / vilões estranhos, perturbadores e / ou divertidos que os criadores de quadrinhos preferem simplesmente varrer para baixo do tapete, geralmente por boas razões.

A ideia para esta lista foi inspirada pela publicação Ultimate Marvel, da editora DK, e originalmente publicada no site Grunge (em inglês).

Asbestos Lady (Senhora Amianto, em tradução livre)

Aqui está uma supervilã da qual toda a apresentação acabou sendo um grande erro. Veja, na década de 1940, a Marvel Comics ainda era nova. Na época, o nome da empresa era Timely Comics, e um dos heróis mais populares era o Tocha Humana. Não, não o Johnny Storm: o Tocha Humana original era realmente um androide heroico, e Johnny roubou sua identidade duas décadas depois. De qualquer forma, Tocha Humana era um dos super heróis mais poderosos que existiam, já que ele podia lançar bolas de fogo em cima de qualquer um que atrapalhasse seu caminho, então fazia sentido que a Timely Comics queria dar a ele um vilão que fosse resistente ao fogo. Entra em cena sua “inimiga natural”: Victoria Murdock, a Asbestos Lady, ou Senhora Amianto!

Oops. Talvez essa não fosse a melhor ideia? Como você pode imaginar, a Asbestos Lady é um super-criminosa que ateou fogo nos bancos para depois roubar eles, com seu corpo protegido das chamas por conta de um traje especial revestido de amianto, de acordo com o site Asbestos.com. Ela também manuseia uma rede revestida de amianto e atira balas de amianto.

Então, sim, ela ficou coberta desse material. Isso é um grande problema, considerando o fato de já sabermos que o amianto é altamente cancerígeno. O contato com amianto causa o câncer muito agressivo conhecido como mesotelioma, além de estar relacionado ao câncer de pulmão. Você pode se imaginar usando um uniforme completamente forjado de amianto? As chances são de que, mesmo que Victoria Murdock consiga evitar o ataque de Tocha, toda essa exposição ao amianto a faria morrer muito em breve.

Egg Fu

Esse cara é uma vergonha, porque a ideia de um supervilão cujo corpo é realmente apenas um ovo gigante é um pouco da loucura cômica que existia na Era de Prata e que se esperava ver com carinho. Sério, se o bizarro vilão Egg Fu fosse combinado com um monte de trocadilhos sobre ovos – “Cuidado, não deixe os heróis te fritarem!” – então, sim, esse cara provavelmente poderia ter sido um meme bem zoado até os dias atuais. Exceto, bem…

Conforme descrito pela Comic Book Resources, o problema é que a personalidade e a aparência completa de Egg Fu é uma caricatura racista perversamente ofensiva. Egg Fu é uma mistura de todo estereótipo asiático que já surgiu. Suas características faciais estão no mesmo nível exagerado de Mickey Rooney em Bonequinha de Luxo (filme de 1961). O parágrafo de introdução descreve-o como “imerso na astúcia oriental”, e toda vez que ele fala, ele substitui os sons de R por L. É doloroso de ler. Apesar de todo o seu corpo ser um ovo gigantesco, Egg Fu também conseguiu criar um bigode estilo Fu Manchu, cujas extensões servem como tentáculos.

Suficientemente previsível, Egg Fu encontra seu fim quando ele é quebrado, o mesmo destino que alcança todos os primos de Humpty Dumpty. Ele voltou e desapareceu algumas vezes. Nos últimos anos, a DC Comics criou algumas novas versões de Egg Fu. Eles mantêm o tema preferido no café da manhã, mas felizmente tirou por completo o terrível racismo.

Ciclone (The Whizzer)

A categoria de “super-heróis que correm muito rápido” é grande, mas o mais popular é certamente o Velocista Escarlate da DC Comic, o Flash. Atualmente, o equivalente mais próximo da Marvel ao Flash é o Mercúrio, aquele mutante de pavio curto que conseguiu ganhar papéis importantes nos filmes dos X-Men e Vingadores. No entanto, quando voltamos aos primeiros anos dos quadrinhos, a primeira tentativa da Marvel para criar um super-herói velocista foi muito mais estranha.

Conheça o Ciclone (Whizzer), o infeliz super-herói que, sabe lá Deus por qual razão, decidiu se batizar com um nome que faz parecer como se ele tivesse transtorno de bexiga (whizzer pode ser traduzido como banheiro). Será esse o motivo para ele estar sempre correndo tão rápido? Esse nome seria o suficiente para ganhar um lugar aqui, mas então o Whizzer teve que complementá-lo com um uniforme na cor amarelo-urina, o que certamente ganharia o desprezo de super-heróis que odeiam uniformes colados amarelos, como Cíclope. Além disso, o que achar dessas asas em sua cabeça? Elas balançam quando ele corre?

A cereja do bolo urinário é a história da origem de Robert Frank, que pode ser encontrada no site Marvel.com e Toonopedia de Don Markstein. Para resumir brevemente, dias antes de Robert começar a girar por ai, ele acompanhava seu pai cientista em um refúgio de algum lugar na África. Enquanto estavam lá, o jovem foi picado por uma cobra venenosa. O pai de Robert corre para salvar a vida de seu filho, fazendo no jovem Frank uma transfusão de sangue de… um mangusto. Isso mesmo. Injetar sangue de mangusto de alguma forma dá super velocidade a Robert, e ele se torna o Ciclone.

Shamrock (Trevo, em tradução livre)

Voltemos ao histórico de publicações estereotipadas flagrantes. Esta personagem se chama Shamrock (Trevo), apenas para termos certeza de que ela é irlandesa. Provavelmente foi criada depois que alguns editores passaram o Dia de São Patrício (St, Patrick) entornando uma grande quantidade de cervejas verdes – o que na verdade é uma tradição americana, não irlandesa – quando decidiram reunir todos os estereótipos irlandeses que se poderia imaginar, e ver se funcionaria como uma personagem.

Não acredita em mim? Bem, como se o nome de heroína criado para Molly Fitzgerald não fosse uma amostra suficientemente grande do seu estilo de vida irlandês, ela também tem uma pele pálida com cabelo ruivo brilhante, usa um traje verde com uma grande folha de trevo no peito, tem um irmão chamado Paddy, e sua habilidade especial é um “poder de boa sorte” que faz com que os eventos aleatórios aconteçam a seu favor. Conforme descrito na Marvel.com, esses poderes foram o resultado de seu fanático e maldito pai nacionalista irlandês que levou seus dois filhos para uma montanha e orou para que seu filho homem fosse abençoado. Os céus decidiram dar esses poderes à Molly ao invés do garoto.

Agora, um aspecto das origens de Shamrock potencialmente interessante é que seu corpo supostamente se tornou um recipiente para as muitas almas de vidas inocentes perdidas durante a guerra, um conceito que poderia ser desenvolvido. No entanto, a natureza estereotipada de todas as outras coisas sobre Shamrock é realmente difícil de ignorar, por isso não é surpreendente que a personagem tenha mergulhado na obscuridade profunda.

Codpiece (Braguilha em tradução livre)

Este vilão da DC Comics é como a adaptação final de quadrinhos de todos os trolls de internet inseguros, misógenos e autoconscientes que você já conheceu. Nada é tão “masculinidade tóxica” quanto um cara tão preocupado com seu status no mundo, que ele atira em todos com um lançador de mísseis gigante amarrado na sua região genital.

Codpiece é o nome dado a uma peça de vestuário masculina datada dos séculos XV e XVI, conhecida aqui no Brasil como braguilha (não confundir com o atual fecho éclair ou zíper). Servia na época para cobrir os órgãos genitais. De acordo com o DC Database, Codpiece estreou primeiramente em uma edição de Patrulha do Destino, é exatamente o tipo de figura desagradável que você esperaria que ele fosse. Ele faz um grande espetáculo de atirar nas coisas com sua maciça braguilha, mas ele fica super sensível se você insultá-lo, e pior ainda quando faz comentários sobre o tamanho de sua arma. Seu codpiece é tão multifuncional que não só pode lançar foguetes explosivos, como também pode emitir um ataque sônico, socar pessoas no rosto com uma luva de boxe carregada com mola, pode usar o instrumento como broca e até uma tesoura gigante, no caso de ter que embrulhar presentes de Natal enquanto estiver no trabalho.

Codpiece foi derrotado pela super heroína Coagula quando ela usou seus poderes para fazer a grande arma dele derreter totalmente. Para este supervilão irritado, ter sua masculinidade dissolvida diante de seus olhos era provavelmente o evento mais traumático em toda a sua vida. Vendo que ele nunca voltou, só podemos imaginar que ele nunca se recuperou de ter assistido sua própria tragédia.

Extraño

À medida que continuamos passando por esta saga de personagens esquecidos, vale a pena notar que os quadrinhos fizeram muitas coisas boas ao mundo: quadrinhos ajudaram a reduzir barreiras, romper estereótipos, e criaram luz sobre questões sociais importantes, como preconceito sistêmico, brutalidade policial e dependência química. Há uma razão pela qual a maioria dos personagens estereotipados descritos neste artigo foram deixados à margem da história: porque os quadrinhos estão sempre progredindo ao passar do tempo. Voltando aos anos 80, no entanto, outro personagem composto de estereótipos dolorosos é Extraño, o primeiro super-herói assumidamente gay da DC.

O quanto pode ser ofensiva a caricatura de Extraño? Uh … por onde começar? Conforme relatado pelo site The FW, Extraño constantemente conversava em duplo sentido, falava com a língua presa, era obcecado por seus cabelos com gel e se vestia com fantasias extravagantes complementadas por jóias igualmente chamativas. Ele também tinha um estranho hábito de se referir a si mesmo como “Titia” e cuspir citações como “Ouça, querido, sua velha titia está aqui para lhe dizer que o sexo pode ser superestimado!” Para completar, Extraño foi infectado com o HIV quando atacado por um chamado “Vampiro da Aids” que usava o codinome de Hemo-Goblin.

Surpreendentemente, Extraño foi revivido nos últimos anos. De acordo com o HIV Plus Magazine, a DC trouxe Extraño em 2016 e a Comic Book Resources descreve como suas novas aparências tentaram abandonar os estereótipos gay ofensivos que, uma vez, definiram o “personagem mais embaraçoso da DC”, recriando-o como um anti-herói mais calmo, menos ridículo, menos estranho.

Skateman

Marvel e DC podem ser as mais poderosas quando se trata de quadrinhos, mas mesmo as pequenas empresas de HQ por ai podem acabar criando algum personagem terrível também. No caso, o Skateman, o herói dos patins que é desconhecido pela grande maioria os fãs de quadrinhos ao redor do mundo.

De acordo com o Toonopedia, este herói maluco patinou no mundo em 1983, cortesia da Pacific Comics. Aparência fraca, a origem de Skateman é um estranho conglomerado de idéias que não se encaixam. Seu alter ego é Billy Moon, um veterano do Vietnã que chega em casa desempregado. Billy gosta de artes marciais, mas seu verdadeiro amor é patinação, o que leva ao seu sucesso como uma estrela na corrida de patins. Então, um dia, seu amigo Jack é assassinado e sua namorada também é assassinada. Billy medita sobre isso até se deparar com algumas histórias em quadrinhos, voltar aos patins e derrotar os bandidos que mataram seus entes queridos.

O autor Jon Morris apresentou o Skateman em seu livro, The League Of Regrettable Superheroes (algo como A Liga dos Super Heróis Lamentáveis. Mesmo que outros especialistas (como o AV Club) considerem Skateman como “irremediável”, Morris tem esperança para o personagem: “Marque minhas palavras: em algum lugar surgirá o criador que pode fazer o Skateman trabalhar, e algum dia eles fará, e espero estar vivo para ver isto”. Talvez se um escritor hábil algum dia encontrar o ponto certo, Skateman ainda poderá ser a base de uma franquia com filmes de sucesso.

U.S.A., the heroic trucker (O Caminhoneiro Heróico, em tradução livre)

Capitão América pode até usar um traje estilizado, mas mesmo o patriotismo do Cap não chega perto desse cara. Ulysses Solomon Archer ama seu país tanto que suas iniciais são U.S.A., o que é difícil de superar. De acordo com o Blog Into Mystery, este caminhoneiro vigilante nasceu como resultado da empresa de brinquedos Tyco se aproximando da Marvel para trabalharem juntos e vender alguns caminhões de brinquedo. A Marvel comprou a ideia, lançando 12 números de uma revista intitulada U.S. 1.

Nos quadrinhos, o jovem americanos cresce em uma família de motoristas de caminhões e sonha em algum dia dirigir seu próprio caminhão. Então, um dia, o U.S. adulto está rodando pela estrada quando, do nada, seu caminhão é derrubado pelo malvado Highwayman, um supervilão que a Marvel.com chama de “flagelo dos caminhoneiros de todos os lugares“.

O acidente quebra o crânio de U.S., então ele é levado para a sala de emergência. Os cirurgiões então substituem toda a parte superior do crânio por uma liga metálica experimental (!), O que lhe dá um poder estranho de telepatia, com o qual ele pode fazer ligações de telefone através de sua mente. Pode-se pensar que um procedimento tão louco deixaria U.S. com contas de telefone enormes, mas, em vez disso, ele de alguma forma tem grana para refazer seu equipamento com todos os tipos de dispositivos quando ele começa sua jornada para derrubar o Highwayman. Na época, havia esperança de que este quadrinho pudesse ser adaptado para uma animação de TV, o que provavelmente teria sido um clássico dos anos 80.

Tyroc

Sim, infelizmente, aqui está outro personagem fruto de racismo, e este pode ser o pior de todos. Tyroc é o resultado de um decreto editorial ter sido criado para a HQ Legion of Superheroes, depois do artista Mike Grell ter notado que a história futurística retratada era demasiadamente branca. De acordo com o site CBR, Grell tentou inserir um personagem negro no livro, apenas para o editor Murray Boltinoff o vetar, afirmando que ele já tinha um plano para explicar por que a revista era tão branca. Este plano se concretizou com a introdução obrigatória de Tyroc, a quem Grell se referiu como “o conceito mais racista que já ouvi na minha vida”.

Grell estava certo. A história absurdamente racista de Tyroc era que, no futuro, toda a população negra da Terra havia decidido deixar o resto da sociedade para trás, muitos anos no passado, se auto-exilando em uma ilha que desapareceu magicamente na costa da África. Tyroc foi o franco defensor desta ilha.

O ex-escritor de Legion of Superheroes, Jim Shooter, que tentou apresentar um personagem negro à Legião durante anos, referiu-se a Tyroc como “patético e terrível”, de acordo com o livro The Legion Companion, de Glen Cadigan. Mike Grell também ficou horrorizado com isso e para protestar contra o conceito de separatismo racial que Boltinoff queria empurrar goela abaixo de todos, Grell desenhou intencionalmente Tyroc vestindo o traje mais imbecil que ele pôde criar, completo com um cinto de discoteca, correntes enormes e pequenas sapatilhas brancas.

Detective Eye

Esse personagem ridículo não é ofensivo; simplesmente provou ser muito estranho para estar em quadrinhos convencionais. Conheça o Detective Eye (Detetive Olho), originalmente apenas “The Eye”, um globo ocular flutuante, sem corpo, que aparece em uma rajada de fumaça ou num redemoinho de chamas, dependendo de seu humor. Quando algo sinistro acontece na Terra, Detective Eye olha para os malfeitores do nosso pequeno planeta e impõe a justiça.

Conforme descrito por Jon Morris no Slate, Detective Eye possui infinitas habilidades sobrenaturais além das normais de qualquer homem, ao ponto em que parece ser mais uma divindade do que um super-herói. No entanto, The Eye prefere que os humanos o ajudem a acabar com os crimes e deter os malvados, o que parece ser a sua única fraqueza e é necessário para que as histórias sejam mais próximas da realidade do que uma justiça instantânea. The Eye fala em inglês, embora de uma forma bastante grandiosa.

Detetive Eye provavelmente era muito bizarro para os quadrinhos na época, mas é certo que esse conceito de detetive mais visionário do mundo (alerta de trocadilho) tem um potencial estranho. Não é, decerto, uma revista de super-heróis, com certeza, mas você não imagina uma visão esquisita e satírica sobre as aventuras de Detective Eye? Talvez uma série animada esquisita na Netflix ou um filme assustador de Guillermo Del Toro? Só podemos esperar que um dia, se tivermos sorte, The Eye olhe07 para nós mais uma vez.

Fonte: Grunge (adaptado)

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